Poemas escolhidos

Memórias Difusas - Antologia poética

"Memórias Difusas" - Ivete Nenflidio


Memórias Difusas, de Ivete Nenflidio
ISBN 978-65-00-26871-3

Embora a autora julgue sua obra simples e acessível, a sua escrita poética é permeada por uma criatividade fantástica e original.
Seus textos são como mergulho em águas profundas, revelando as impressões ligadas ao mais íntimo “eu”, transbordando emoções e sentimentos, apresentando uma narrativa rítmica e melodiosa.
Sua poética é baseada no cotidiano e caracterizada por uma delicadeza surpreendente e por uma sabedoria de quem observou cada detalhe do caminho percorrido.
A lírica de Ivete Nenflidio é impregnada de história, memória e ancestralidade.
Manuel Luiz Freitas (Ed. Beira)

A escritora lança seu primeiro livro de poemas e a terceira obra literária; a autora é articuladora cultural, pesquisadora das manifestações tradicionais e curadora de festivais multiculturais.

"Memórias Difusas" - Ivete Nenflidio

Depoimentos


Poemas de ivete Nenflidio


Poemas de ivete Nenflidio
Paixões impossíveis
No mais violento do meu martírio,
deixo-te ir,
amor improvável,
amo-te livre!
Voa para me esquecer
e se sentir saudades;
voe para voltar,
volte para me amar.
No mais íntimo da minha volúpia,
chegue sem pressa.




Teu nome
Se tu fosses uma palavra, certamente seria a mais bela,
talvez eu te chamasse de adorável,
ser encantado que desorienta minhas razões.
Ou te chamasse de caminho, mas não qualquer um,
tu serias aquele com harmonioso cenário,
ainda poderia chamar-te de mistério
ou de infinito, já que não posso imaginar tua dimensão.
Teu nome poderia ser chuva,
rio ou o nome de qualquer substância fluida que mate a minha sede,
também te chamaria de marés e lembraria o balanço do teu corpo sobre o meu.
Então começo a divagar por pensamentos e me vem a saudade,
palavra bonita que também me lembra de ti.
Recordo tantas outras belas palavras:
coragem, esperança, memória,
sem dúvida, teu nome seria o mais sublime de todos.
Mas nome bonito mesmo é liberdade
e tu terias nome e sobrenome.


O ARQUITETO DA ARTE...


A pintura
No quadro tingido de desalentos e frustrações,
o artista imortaliza suas dúvidas e angústias.
Tentando criar uma inusitada obra de arte,
o artista olha o corpo nu.
O corpo é tela em branco, onde produz graciosos afrescos,
cria em pensamentos eminentes cordilheiras,
revela traços nos seios da amada, imponentes picos.
Nas curvas do corpo nu desenha as estradas que ainda não percorreu.
Observa seu quadro inacabado, são pequenos rascunhos.
Produz esboços de divertidas nuvens de algodão
disfarçadas entre as estrias do corpo nu.
Acima do coração eterniza os momentos que foram bons.
Com a ponta dos dedos cheios de tinta
observa o painel,
enxerga o contorno de um corpo, continua compondo a pintura.
Pinta a beleza em movimento e a tempestade afável sem vento.
Pinta os dias turbulentos, agitadas formas estranhas.
Também pinta as mínimas manifestações dos dias de calmaria.
Pinta a Lua grandiosa e algumas partes encobertas,
nuvens melindrosas...
Pinta os mistérios, o dia principiando,
continua pintando a tela, corpo vazio, corpo nu.
Pinta o Romantismo, o Realismo.
Pinta o Impressionismo, o Expressionismo.
Seus olhos brilham, ele renasce.
Triste artista, pinta suas lamúrias,
continua pintando...
Pinta o calor do Sol aquecendo sua alma.
Pinta o canto das cigarras,
o som das matas.
Pinta o cheiro do mato molhado.
Artista insaciável devora sua tela,
pinta mais e mais...
Pinta estradas desconhecidas,
procura desbravar novos caminhos,
pinta o instrumento silencioso do cantador...
O olhar apaixonado do homem comum,
o som estridente da alegria das crianças
e suas lúdicas fantasias.
A tela é corpo cansado...
Precisa adormecer, é corpo exaurido, corpo nu...
Nos pés descalços,
mais e mais pinturas, pinta cada pedaço.
Não és mais tela em branco, és tela habitada de entretons.
Colorido impossível de imprimir...
Pela manhã, a mulher matizada renasce tatuada de beleza.
A arte e as marcas da pintura estão encravadas em seu corpo.
Pureza e contentamento.
Depois de pintar tão belo quadro,
o artista de olhos desconexos apenas observa.
Contempla seu ofício, admira e se orgulha...
Sua obra, tela corada, é corpo marcado de encanto.
Quadro harmonioso...
Pintura sutilmente traçada pelas mãos do artista.
Pelos dedos pincéis,
ele continua examinando o corpo nu vestido de beleza.
O artista, apaixonado pela sua criação,
se entrega à paixão e ama delicadamente sua mais recente obra-prima.


Maré vazante
Preciso romper os canais
Descobrir os mistérios
Conhecer vales, rios e mares...
Perdida, sou como uma ria de erosões
de profundidade inalcançável.
Tento prever seus prováveis egressos,
conhecer grutas de cimentadas paixões
e profundos grotões.
Seus poucos vestígios...
Miro paisagens áridas afogadas de chão,
preciso compreender a origem das
indefesas e expostas crateras...
Algo foge, és maré vazante!
Fico sem ar, me banho de areia,
estou ofegante.


Prenda
Você chegou adorável,
retratando a beleza,
a delicadeza da gentileza,
o cuidado com a natureza.
Bem-aventurada aranha resgatada,
libertada
pelas tuas mãos.
Pássaro acarinhado,
Pequeno “ser”,
Voa!
Procure seu destino!
Passageiro de longas trilhas,
apresentou sua folia.
Como os reis,
veio direcionado pela estrela que mais brilha.


Caminhador
Percorreu extensos caminhos
e chegou feito mistério...
Nos abraçamos,
sentimos a força,
histórias conectadas...
Em frente ao lago trocamos carícias
embalados nas redes do devaneio.
Adorado oceano de lavas azuis,
inesperado retiro alheio,
cachoeira de fogo,
ápice do encantamento,
deserto florido,
natureza viva.
Ouvimos os sons do mato...
Sentimos nossos corpos ávidos,
cálidos, aflitos,
que clamam, corpos em chamas...
Força assustadora!
És amor envolto em teias,
cascatas submersas
e uma tempestade eterna.
No emaranhado dos meus cabelos,
entre os meus desejos,
és fogo, és delicadeza...
Tu me cativaste com tua arte,
estreaste uma peça,
contos, segredos,
apresentaste primitivas cartas,
lúdicas mágicas entre os dedos...
Amor sorrateiro de olhos miúdos
e olhar intenso...
És como uma chuva de pedras,
és como os ventos da invernada.
Sem pedir licença, penetrou meu mar,
me fez mulher...
Singelos segredos do beijo roubado,
beijo molhado, minha boca em você...


Devaneios
Distraída, pego-me pensando em ti,
amei sem que tu soubesses,
sem que tu percebesses.
Preciso me acostumar com a tua ausência
e buscar, na escassez de ti,
respostas.
Não espero mais o beijo,
só ficaram planos e o querer.
Tento não pensar mais em ti.
Antes te encontrava dentro de mim,
agora tento eliminar as lembranças,
rasurar meus poemas, apagar teu nome.


Somos atores
Na eterna expectativa para o início do espetáculo,
estamos apartados, concentrados, cenas complementares.
Me preparo para o grande ato,
observo as cortinas do proscênio do antigo teatro,
penso na nossa primeira troca de olhares,
idealizo belas interpretações do primeiro ato...
Tu chegas de mansinho,
extraordinária espera,
como já estiveste em outros bastidores.
Te aproximas calma,
não te reconheço, face desconhecida;
observo teu corpo,
te vejo com contornos indefinidos,
visão encoberta, visão turva,
luzes apagadas.
Segundo ato...
Corações de tempos antigos,
almas atadas
finalmente se encontram,
estão unidas para dramas encenados
ao som de antigas cantigas,
trocam olhares silenciosos,
toques sutis, abraços cerrados,
desejos aflorados,
súbito calor, palavras confundidas, fictícias,
difusas, perdidas...
Finalmente te reconheço, tu estavas em meus pensamentos...
Guardado em instantes, eternizados.
Fim do segundo ato.


Dualidades
Sou como duas extremidades do apontado lápis que esculpe.
Sou remanso das águas largas quando me olhas depois do amor.
Sou calmaria nas noites sem vento quando existimos em noites de lua.
Sou mar inquieto de águas espumejantes que bailam confusas, distantes de ti.
Sou chuva delicada que refresca.
Sou tormenta destruidora que rompe o silêncio.
Sou assim!
Certa e perdida, às vezes encontrada, outras desaparecida.
Por vezes, um livro aberto, outras um relicário de mistério encoberto.


Baía da Praia dos Prazeres
Para Gaspar...

Te espero em frente ao mar,
somos apenas eu e a Lua,
te espero, estou ao lado da encosta!
Sou aquela de mechas rubras e costas nuas...
Estou a refletir sobre a imensidão do mundo,
estou desarmada,
pele gélida, coração palpitante.
Quero tocar-te, sentir teu hálito fresco,
teu pelo hirsuto de desejo,
te espero com um poema guiado pelo vento,
te espero com os lábios semicerrados,
sou silêncio, nenhum vocábulo.
Te tocarei com os olhos,
te falarei com as mãos.
Examinarei cada parte,
te entregando fragmentos de
todos os meus sentidos.


Entressonho e fricção
Antes de tu chegares, me encontrava em silêncio,
entorpecida como os vulcões dormentes,
tristes e acanhados.
Chegaste lentamente,
conversamos sobre poesia, política e filosofia,
nos aproximamos, graciosas afinidades,
logo sentimos a brutal dor da saudade.
Tu recitaste um poema,
o meu preferido,
declamaste delicadamente.
Foram olhares distantes que penetraram em minha alma,
criando pequenas fogueiras que saíram
das páginas do “Livro dos Abraços”.
Foram ditas palavras sigilosas,
excessivas histórias;
de peito aberto lhe contei meus maiores segredos,
meus maiores desejos.
Tu me acalmaste com o silêncio,
me ajudaste a enterrar fantasmas,
me libertar das algemas,
esquecer o passado,
já não penso no estrago.
Com medo, tu tentaste o isolamento,
talvez por temer o desconhecido
ou por não acreditar cegamente.
Decidi também me afastar,
notei os riscos de algo tão raro,
tudo ficou fora de controle.
Tu passaste a fazer parte dos meus sonhos,
alvoradas solitárias em que te percebo.
Sou moradora das ausências,
me encontro e me perco em águas turvas,
solidão inevitável,
sou viajante das utopias,
vivo perto das estrelas.


Profundezas
Preciso preencher o vazio,
tu que me apresentas novos caminhos,
me mostras o acaso,
outras amarrações.
Tenho um olhar de abismo,
te procuro na névoa dispersa,
te encontro na imensidão,
falo contigo em pensamentos,
clamo, me dê suas mãos.
E, por fim, nos entregaremos
em noites de tormenta,
nas beiras do infinito regresso,
onde desafio o oceano
e na profundidade das águas,
navego, aceito as rajadas.


Saudade em tempos do cólera
Acolho o inevitável e tento não polemizar.
Rara solidão, terrível cerceamento, malsucedido retiro obrigatório,
já não me deixo abater.
Guardei sentimentos, parei de vitimizar.
Aprendi a suportar a privação; resisto,
não sofro mais no exílio.
Sou como pássaros migratórios aguardando o início da viagem.
Me conduzirei até você, irei ao seu encontro,
conto os dias e as noites.
Amado...
Não se afogue no álcool, não dramatize, pare de morrer,
aceite esse momento de conflitos internos.
Chegou sem avisar e me consumiu com sua voz, com sua coragem,
tome fôlego!
Acalme o coração!
Logo meus olhos encontrarão os seus e,
apesar das forças contrárias, logo estarei em seus braços.
Você vem me encontrar, percorrerá infinitos caminhos,
fugirás para os meus braços, lhe entregarei meu ombro,
lhe direi palavras exageradas,
terei ciúmes das minhas mãos que te tocarão e
preencherei todo o meu corpo com o seu excesso.


Sonho
Nasci numa cidade de nevoeiros,
bruma que faz vanescer estradas;
em algumas noites te percebo
cravado nas nuvens de chão,
és rara visão.
Extraordinária ilusão,
estás perto da terra, perto do infinito,
homem estrangeiro,
meu companheiro!


Ah! Se você me amasse…
I
Ah! Se você me amasse…
Seríamos o Sol do “primeiro verão”,
eu sopraria em seus ouvidos breves poemas,
nos momentos de paz você seria água pouca,
água que purifica, que borbulha de frágeis e delicadas nascentes,
nos momentos de desejo, seria água tempestuosa, fervente,
água que corta a cordilheira em excitadas correntes.
II
Ah! Se você me amasse…
Nosso amor seria inspiração, versos cativantes nos cadernos de apaixonados escritores,
você salvaria minha alma, esqueceria antigos amores,
percorreria todas as minhas fronteiras,
seria meu Sol na linha do Equador,
meu corpo pediria urgência nos momentos de silêncio.
Você seria meu todo, o toque lento e forte,
o encontro das águas, meu divisor.
“Primo Vere” com seus milhares de tons,
colorido único das flores da estação...
Fantásticas visões!
III
Ah! Se você me amasse…
Viveríamos em lugares divinos,
seríamos presenteados com todas as flores,
conheceríamos extraordinárias floradas,
durante o dia, eu enxergaria com seus olhos,
você permaneceria calmo no alvorecer,
à noite me abraçaria forte e aqueceria meu corpo,
eu teria novamente o brilho da luz em meus olhos,
a luz da mais bela estação.
IV
Ah! Se você me amasse…
Eu estaria em seus sonhos criando mil conexões,
você comporia uma nova canção,
você estaria comigo em todas as ocasiões,
mesmo distante, estaria comigo,
você moraria no aconchego dos seus pensamentos,
habitaria meu corpo saciando minha fome matinal,
desfrutaríamos do mais puro contentamento
e todas as manhãs seriam fascinantes.


Vilarejo 
Guardo você nas aldeias do meu corpo,
nos vilarejos criados em minha mente,
nos manuscritos rasurados pelo tempo,
na terra estranha que invade meus sonhos todas as noites.


Despedida
Gran finale...
Comoventes citações dramáticas
Sou corpo marcado
Apavorante distanciamento inesperado...
Sou trilho vazio, aguardo, espero uma carona,
uma porta qualquer que se abra,
uma cabine do Trem de Prata,
te encontro, talvez...
Atormentada despedida
Afastamento cruel
Apartamento impiedoso
Partiste levando um pedaço de mim
Rompeu minh'alma e silentemente se foi,
embarcou no vagão do acaso...
És justo,
Pensa nas dores do mundo
Te deixo ir
Interpreto o silêncio...
Sei que devo aprender a viver sem teus braços
Sem abraços, aprendo a viver, aprendo a morrer...
Vivo em estado latente,
mente encoberta como véus brilhantes...
Amado...
não tenhas medo, vença os traumas
que incessantemente insistem em fluir,
pele alagada de notas sabor acre...
Tens sonos perturbados e desperta com pequenas marcas,
um peito cravado por uma adaga,
fulminante oceano profundo,
olhos abertos no mar profuso, sem fôlego...
Ainda que a fome te devore,
que a euforia te entristeça,
que o cansaço te desperte,
que o frio te queime,
que a luz te cegue,
faça, diga, sinta, siga...


Veredas
Algumas estradas,
as mais belas, ainda me levam até você!
Estou em seus pensamentos?
Cante-me uma prece,
vibre belas melodias...
Estou em sua mente?
Venha me visitar,
invada meus sonhos,
brinque com meus desejos...
Sente saudade?
Desenha-me uma canção,
recita-me uma sinfonia...
Sente minha falta?
Venha me ter...
Me quer? Mereça-me.


Estrangeiro
Imagino aquele homem desconhecido
que delicadamente traduz meus sonhos,
como um pesquisador de tesouros submersos,
com seu escafandro me decifra
e busca conhecer todos os meus mistérios.


Desaparecidos
Quero-te faceira, teu riso solto,
o salto, o falar alto,
o romance, o disfarce, o doce enlace...
Quero tudo que me lembre sua face
e nego e renego todo esse luto...
Chega!
Basta!
Todos os caminhos
foram percorridos,
todo sentimento contido e aquele grito torturante,
penetrante, continua martelo ritmado...
E diante do anonimato,
o que sobrou foi o triste silêncio dos retratos.


Não demores!
Não posso largar os vícios que te sufocam,
eles são os mesmos que me perseguem...
Encantado organismo perfeito,
sinto falta de tudo, até mesmo do breve...
Não permitirei que a tristeza invada
onde moram as mais belas memórias...


Razão
Não existe mais um jardim em mim,
nada de gosto, de cor, nem sabor,
apena uma boca selada,
palavras cansadas,
o que me calou.
E enterro a renúncia, o dissabor,
pensamento entristece
de sonho contido,
de ingrata doutrina.
Não é a vontade divina!
É o que destrói nosso amor...


Corpo sedento
Volte!
Ondeia meus pensamentos,
envolva-me em abraços...
Você, que mudou minha vida
com sua fala amável, doces palavras.
Me faltam os épicos contos,
os versos rimados...
Clamo por ti...
te encontro nos sonhos...
Sem ti, sou chão de concreto,
terra eivada...
Pássaro triste,
dia brumado,
inverno severo...
Sem ti,
o sereno habita meus olhos.


Contemplação
Velo cuidadosamente teu sono,
me distraio em pensamentos íntimos.
Reflito.
Examino detalhadamente tua alma,
cada fragmento, és indecifrável,
és vulnerável.
Agradável contemplação,
estudo atentamente teus traços,
tua face adorável;
despertas em abundante deleite,
venero-te com os olhos...
Docemente me entrego!


Enredo envelhecido
Palavra tocante que sai de bocas cansadas,
comovidas palavras,
peles cálidas que procuram a chama,
que clamam,
momento que se arrasta,
que fere, que afasta...
Enxergo a cor terrosa do talude
e recordo dos traídos,
todos aqueles que se iludem...
Concordo, é difícil,
a vida não vale nada,
também estou predestinada,
prometida,
fadada a nada...
Também me sinto em um cerco,
também procuro respostas,
Pode acreditar, eu também me perco.


Eco
Chove na noite
entorpecida de vento,
de frio nevoento
descampado,
distante das ondas cordiais,
ondas de afeto.
É só uma noite qualquer,
e na calada da noite
se faz necessária
outra missão,
emaranhadas lições
incompreendidas,
algo inventivo a cumprir...
Vivendo na colina eremítica
de ilusões trágicas
de vida ilusória,
mora na rua,
ilha de estradas
escorregadiças,
de cristais glaciais,
descida que faz rolar
a frenética e roliça
pedra do gelo,
alude que soterra,
que enterra...
Muros mudos,
janelas cegas,
noite afora,
o relógio que não para,
tempo sem hora,
gélida e cálida...
Atrista as mãos
do sangue que congela,
bafos de fumaças
de invernada,
fumos de frio,
que gela e cala...


Sonhos nº 1
Ao lado da mobília de dormir,
espreito a claraboia de baixa guarida,
enxergo em grande delírio
folhas cor de ferrugem
com faces de estiagem
e olhos de queima.
Que estranha ilusão,
sonhei que o Sol me assistia
com um absoluto sorriso,
aquentava meu corpo desfolhado
e observava...
Seu esplendor encandeava, convidava;
levantando,
experimentei uma terrível vertigem.
Sol mudo e quente,
és calor que fascina,
calor que rebenta.
Vejo pássaros
numa desalinhada coreografia,
asas escancaradas,
vejo partículas de
orvalho na vidraça.


Vento Norte
Vento calmo ou euforia, vento sopro, ventania...
Tempo antigo, meu melhor amigo,
quero novamente poder sonhar,
sentir o vento, ver o mar e viajar...
Vento forte, traz de volta o meu amor,
que eu te entrego o que tenho de melhor...
Vento brisa, calmaria,
transformo versos, crio melodias...
Vento calmo, clareira um novo dia.
Não quero mais olhos de espanto,
eu que amei tanto!
Leva embora minhas cartas, minhas memórias,
leva para longe esse pranto!
Vento livre, poesia,
me traz inspiração, sou feito ventania,
cante uma canção tantas vezes cantada,
tantas vezes dada, esqueça a razão...
Eu canto para você numa noite de luau,
tudo que é bonito e natural.
Leva para longe meu pranto,
eu que amei tanto...
Quero ter o direito de sonhar,
de sentir o vento, ver o mar e viajar...
Vento breve, fresca brisa,
vento leve que me inspira
a escrever minhas memórias...
E (re)escrevo antigas histórias para você,
você que não está aqui,
você que é tão bonito,
que é pura formosura,
que aquece a noite fria,
ilumina a noite escura!
Repito contos de histórias não vividas...
Vida leve,
esqueça tudo que não serve,
vento suave,
tempo antigo, meu melhor amigo.


Pescador
Com corpo trancado, sai para a labuta,
adentra a imensidão,
mares, ares do oeste,
uma extenuante luta.
És sonhador e leva consigo a cor dos meus olhos.
Pelas tuas mãos firmes, travessias de descobertas,
estás prestes a me ver...
És jangada de braços-remos,
em seus gritos ecoam os sons dos oceanos
e na Pedra do Sal, mais um dia se esvai...
Com seu olhar atento, vai lendo o mar e os ventos
e se acalma na frondosidade de profusas copas
e na balsa de antigos ipês repousa em tábuas...
És prometido a me perder e vai vivendo,
negociando com mercadores,
e segue viajando por outros lares,
ouvindo o relato de tantas dores...
Sei que logo voltará,
regressará para se fortalecer
e, no aconchego do meu ser,
na restinga dos meus olhos,
me verás colorida,
cores de bromélias...
E se refrescará no tempero das minhas águas,
onde mergulhará e me encontrará inteira,
e descobrirá no frescor da minha brisa
um voo de gaivota,
um vento fresco paraíso
de doces notas.
E no teu abraço, no qual me perco,
grandes galhos labirínticos
impedirão a erosão do teu ser
e fortalecerás mais uma vez
as suas desgarradas raízes.


És rio, menino
Pensas que és mar!
Desconcertante oceano azul com correntes gélidas e silêncio arrebatador,
com águas glaucas e gosto de lágrimas insalubres
que, migrando sob distintos rumos, afunda naves em grandes naufrágios,
em revoltos maremotos.
O Deus Netuno mostra sua força,
buscando mistérios escondidos em cavernas,
por vezes mostra-se calmo e disfarça,
acalentando a velha canoa ancorada na praia,
num pacato bailado de melodia dissonante.
Atinado, insidioso, mar fatalmente traiçoeiro,
organismo absoluto poderoso
com ondas ferozes, abatimento mortal,
faz desaparecer ínsulas, escava rochas,
revela sua fúria e exibe o interior da íngreme falésia de taludes
de tons alaranjados e cor de mel.
Amado...
Não és mar!
Não és raso e nem esse fundo arrasador!
Conheço-te!
Não és espuma, nem sal!
És rio!
És doce!
E procuras navegar novos leitos,
és água que verte,
Tu...
Rio menino,
rio que transborda,
rio que contorna os obstáculos,
rio que extravasa à procura de novos canais,
rio que flui,
água doce que preenche a cisterna,
que banha o solo,
que traz esperança,
que faz brotar o sustento,
que transborda a moringa.
És Rio doce, Rio Menino!
buscas a correnteza,
buscas novas aventuras.
Em noite banhada de luz,
teus olhos reluzem, cor de avelã.
Amado...
Tu sais à procura de um lugar de cavas profundas,
lugar onde encontrarás o justo repouso,
rio banhando,
rio aguando,
Eu?
Sou leito árido,
Tu...
Rio que mata a minha sede!


Lusco-fusco
Na busca por novos caminhos,
tento decifrar desatualizadas cartas,
primitivos manuscritos com raros caracteres,
não compreendo, são frases implícitas,
confusas visões... bifurcações...
Confesso segredos em breves distrações;
definitivo lusco-fusco,
singela luz do declínio,
doce crepúsculo,
chega sem pressa...
É um fugaz divisor das águas.
Estou inquieta, tento meditar, busco a paz,
não sinto o vento,
na febre você partiu,
hoje fotografo seus olhos para te esquecer,
procuro a melhor metáfora poética.


O Sol e a Lua
No eclipse anelar ou total,
o Sol está sempre a abraçar a Lua,
a enlaça, a envolve.
Sedutor calor,
são companheiros apartados.
Ele, o Sol, por vezes, cinge incandescente;
outras vezes, carinhosamente, meticuloso, surge anel de fogo,
resplandecente.
Sol, força de energia vital, és Terra!
Lua, que estabiliza a Terra e movimenta oceanos, és água!
São corpos celestes apaixonados
e frequentemente se encontram para carícias.
Às vezes vaidoso, o Sol desenha para a Lua um surpreendente entardecer,
já ela se mostra vermelha, corada de vergonha
e se revela mulher, Lua sangrenta.


Alucinação
Sonho confuso:
como invenção de antigas memórias,
reparo carros enfileirados,
analiso o fluxo lento...
Apressados?
Só os corpos angustiados, confinados em comboios.
Caminhos congestionados
e desejos lépidos.
Em meio ao caos,
presencio inusitada beleza ofuscante,
contemplo um exuberante pôr do sol,
estaciono na estrada,
fotografo em pensamentos todas as cores,
que extravagante visão emocionada!
Vejo pássaros falantes e
me confundo com os motores silenciosos,
ouço melodias entoadas por anjos solitários,
como preces de eremitas
que, aprisionados na solidão,
contemplam o horizonte dos deuses.
Aprecio o belo entardecer, sigo...
Não ouço buzinas,
mas observo pelo espelho retrovisor algo que ficou no passado,
vejo mãos gesticulando, corações agitados.
Entendo... Acelero!
Não desperto do breve devaneio,
permaneço presa ao mundo dos sonhos.


Viajei para te encontrar
Viajei milhas para te conhecer,
viajei da Amazônia ao Arizona,
escalei montanhas,
espinhaços assolados,
saqueados, devastados...
Mais uma cidade estranha,
façanhas nas primeiras luzes da manhã,
delírios no sol poente e à espera de outras caronas,
te imaginei em sonhos.
Vi uma velha tecer, cenário triste e solitário
E, enquanto tecia, compunha memórias de infância.
Viajei só, triste, perturbado, olhar desolado,
viajei pelo sertão,
encontrei um homem recluso
e confessei os meus pecados...
Cruzei sete cidades, vi o castigo,
vivi o martírio, vi homens sem fé,
vi escombros, vivi guerras,
vi o que nenhum homem deveria ver...
Passei por apuros, ouvi os disparos,
tanto horror perante os céus...
Homens da descrença,
da tormenta, da recompensa...
Andei por campos,
viajei de Queluz a Ilhéus...
Demorei para te conhecer
e, fitando os olhos nos céus, adormeci
e, antes mesmo de te conhecer,
por ti, compus poesia e oração,
te pedi para Deus,
para viver esse grande amor,
libertei minha alma,
me mostrei selvagem, fui tempestade...
Percorri muitos lugares, léguas e léguas
e foi no inesperado que te achei,
subitamente te amei...
Nas águas claras
das tuas misteriosas corredeiras,
desafiei e, na queda certeira,
vi os sete anjos,
senti seus doces beijos,
povoado vilarejo...
E cheguei aonde somos pares.
Viajei fitando astros,
segui seus passos, seus rastros
e deu-se o encontro,
sentimento que aflora
e fez-se silêncio no céu por quase meia hora...
Terríveis e intensas trocas,
hoje durmo fitando signos,
a brisa é coberta que arrepia,
que acaricia, é sonho, utopia.


Encantamento
Fui pássaro,
viajei longas e exaustivas jornadas,
assisti a belas paisagens,
ouvi promessas de outros viajantes,
fui exímio cantor.
Observei campos, plantações, pastagens,
observei estradas,
serras com seus vales...
Nos dias chuvosos, na invernada,
dias de denso nevoeiro,
não enxerguei o horizonte,
em outros dias,
lágrimas escorreram ao contemplar tão belo pôr do sol.


Canto solo
Passarinhei, sou passageiro,
viajante, embriaguei...
Eu te neguei, te procurei,
e na triste dualidade,
ausência que verte,
me vi partir, repartir,
sonhei te encontrar
e segui para te achar.
Sou viajante dos oceanos
e ando te negando,
observando, velejando.
Busquei outras formas de respirar,
sentir o vento
e sei que exagerei, fiquei confuso,
dilacerei de tanto ar,
de tanto mar
e cheguei no fundo,
no limite
e por segundos
virei espuma
e, em cacos, desapareci.
Precisei desbravar outros mundos
e sei que seguirei voando
e, noite afora, vou adentrar,
rebentar as águas e recompor,
assentamento necessário,
sou canário cantador.
Observei só,
como o velho pescador que ama o mar!
Astro-rei eu me queimei,
brinquei com fogo
e me lembrei que tudo é ligeiro
e que muito desperdicei.
Agora tento te esquecer, Mulher.
Sou pássaro passageiro,
sou certeiro no voo rasante,
sou vibrante, viajante,
sou de qualquer lugar,
aspirante navegador, eu sou do mar!
Sou imperfeição, sou canto solo,
sou o silêncio da solidão,
sou rio sangrando o chão!


Delírio
Desejo de solo estrelado,
uma ceia,
velas acesas,
luz de candeia,
espero mãos que passeiam,
dedos arados...
Na madrugada não se demore,
se vista de rio,
more nas minhas margens,
se alimente do fruto
do chão sagrado,
não reine silêncio, seja delírio.
Tenho olhos apressados,
caudalosos, de terra árida
e na escassez infinita dos seus olhos,
pálpebras rachadas de sede,
imagino seus passos sísmicos
e sob os seus pés
a sombra que persegue.


Para alguém que partiu
Partindo para a misteriosa viagem,
buscando a liberdade,
qualquer oxigênio,
que a tire do sufoco,
que a tire da beira,
que interrompa esse susto,
abrupto, esse calor de palpitação, essa vibração.
Leve contigo o que foi bom...
Você foi minha alegria,
quando ria transbordava,
ria de chorar,
e alagava nosso aconchego,
nosso lar.
E era tanto riso,
tanta água que jorrava,
que transbordava,
era tanta alegria que sentia
e no meu peito nas pedras rasas do meu rio,
você escorregava, deslizava.
Éramos apenas um...
Hoje, quando me deito, sou leito sedento,
em uma noite qualquer,
tranco os olhos e sonho com você...


Utopia
Sonhei um sonho estranho,
no devaneio a realidade,
como a conhecemos, não existia,
todos os atos, cada cena
era um trecho de uma peça cênica
cercada de alegria,
provável que sejam trechos
recentemente escritos
por alguém que acredita na utopia,
alguns personagens, admito,
eram bem confusos, era um mundo novo,
tinha versos e poesia,
tudo podia ser recriado
e (re)encenado,
era permitido errar, você podia corrigir,
acertar todos os equívocos,
ninguém morria de morte violenta,
a morte só abraçava aqueles que viveram muito
e que foram felizes,
todos precisavam encontrar a plenitude,
estava no manual, sim, existiam regras,
os leitos dos rios eram cercados por flores
de todas as cores,
as águas eram límpidas,
cristalinas enxergávamos o fundo,
as pedras eram enormes, brancas e polidas,
parecia que alguém as tivesse lustrado,
os peixes eram graúdos,
ninguém pescava mais do que precisava,
os campos eram plantações diversificadas,
coloridas de saúde,
as copas das árvores eram frondosas e as folhas verdinhas,
existiam ninhos com pássaros de todas as espécies,
as crianças aprendiam desde cedo
a respeitar todas as formas de vida,
os homens eram generosos
e dividiam suas tarefas com todos,
os velhos eram adorados
e reverenciados, suas falas eram prestigiadas
e seus ensinamentos difundidos,
as crianças brincavam soltas, só alegria
e toda a comunidade as protegia,
as chuvas eram sempre calmas,
o calor do verão sempre brando, 
estavam mais para veranicos
e o frio nunca era intenso
a ponto de matar alguém congelado.
O mundo era assim, cheio de pureza,
respeito às memórias dos povos ancestrais,
todos cuidavam uns dos outros,
nos dias de festas,
as fogueiras só queimavam galhos secos,
libertados naturalmente
pelas majestosas árvores seculares,
ninguém precisava de moedas
ou qualquer tipo de dinheiro,
as brincadeiras eram passadas de geração para geração,
a música era cantada por todos,
até pelos mais velhos,
as danças comemoravam os nascimentos
e os falecimentos,
a natureza das coisas era compreendida com sabedoria.
Acordei do breve devaneio
e descobri que esta é a minha utopia.


Tormenta
A tempestade anuncia um tempo sombrio,
tempo de perseguição,
tempo da indelicadeza,
ainda bem que tens a tua intuição, querida amada!
Quando enxergares as tropas dos homens da petulância,
dos braços da intolerância,
foge! corre!


Revolução
Calendas de Março

Turbulento celeiro que guarda as armas da revolução,
daqueles homens que fogem da tirania.
A esperança está perdida?
É tarde, muitas batalhas indecorosas,
com medalhas insignificantes.
Aproxima-te da morte!
O céu negrume anuncia a abundante tempestade,
são tempos sombrios.
Quero-te vivo!
Sepulta essa luta de territórios conspiratórios,
são tempos inglórios!


Encontro e refúgio
São risos soltos ao acaso,
inibido contentamento,
provável paraíso,
todos os anseios,
ciclos de euforia,
picos e rias…
Na calada da noite,
confundo os apelos
e no emaranhando
dos meus cabelos,
resvalando seus pelos,
na nossa pequena aldeia,
subitamente desvanecemos.


Mar profundo
Na desabitada costa de La Perla,
fitando a amplidão de horizonte intocável,
com passos lentos caminha a poetisa...
Seu pequeno corpo busca o descanso,
seus desajeitados passos marcam a areia fina e macia,
no aveludado caminho, recorda amores que não viveu,
viagens de uma vida não vivida, sucessiva caminhada...
Em seu derradeiro olhar, assiste a cores,
recorda seu breve destino, idealiza cada cena, visões trágicas!
Busca o aconchego das águas,
encontra nas profundezas do mar a esperada paz,
agora adentra o mar com passos cravados e
o coração cheio de incertezas,
busca espumas, sangra os olhos, busca o sal!
Sua cama agora é úmida e fria, no remanso das águas,
entre devaneios e ouvidos selados,
concebe notas de antigas árias, cantigas dos anjos.
Calmamente adormece!
No entorpecido sono, no repouso merecido,
relembra alegres distrações de menina...
Corpo padece, coração que cessa, triste desfecho...
Sua despedida foi como suas palavras,
vestida de encantamento, triste epílogo...
Sentiu a única saudade possível,
sua face marcada por dores e amores
não revelou seus mais profundos segredos,
não encontrou respostas.
A poetisa de olhos negros não soube morrer,
mas a morte a abraçou, as águas a acolheram
e os seres marinhos a ampararam.
A noite chorando
encheu de orvalhos sua vegetação litorânea.
A Lua, assistindo à triste partida,
se escondeu atrás do breve nevoeiro.



É cansativo demais folhear
cada pedaço de vida perdida,
não quero essa dor!
Imperantes sentimentos sobrevivem,
essenciais, são como o ar que respiro,
como a água que mata minha sede:
imperceptível...
Mora dentro de mim!


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